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| LP Vento de Maio - 1967 |
Foi o que aconteceu quando, numa noite, decidi assistir a um documentário leve a fim de amainar um dia cansativo. Escolhi um que seria uma série sobre a vida de uma das musas do nosso passado musical. De repente quis conhecê-la um pouco melhor. O que sabia a seu respeito? Quase nada. O que conhecia de suas interpretações? Muito pouco. Seu nome basicamente me remetia à bossa nova: Nara Leão.
Pasmei ao perceber meu desconhecimento sobre quem era Nara. Uma artista parceira e contemporânea de outros de que sou fã e admiradora, como Chico Buarque, por exemplo. Não imaginava a leoa que existia por trás daquela voz de veludo e personalidade discreta. Somados a isso, talento, inteligência, coragem e visão. Uma mulher moderna e à frente do seu tempo. Além disso, detentora de um espírito livre e afeito a mudanças, não gostava de ser rotulada ou definida como a musa da bossa nova. Uma novidade para mim esse seu lado diverso que gravou distintos estilos de música, surpreendendo a crítica inúmeras vezes.
Assistir a esse documentário foi tão producente que fui me dando conta do quanto desconhecemos ou pouco sabemos sobre alguns artistas do nosso país. São verdadeiros ícones, talentos que estão partindo desta vida e deixando uma lacuna impreenchível. Quando eles se vão é que, muitas vezes, despertamos para a importância e valor do seu legado, e até mesmo conhecemos sua obra ou a ligamos ao autor. Tenho autoridade para falar porque já aconteceu comigo e lamento por isso. Contudo, antes tarde do que nunca.
Após essa descoberta, me senti impulsionada a buscar pelo que Nara havia nos deixado. E foi uma experiência das mais agradáveis. Logo criei uma playlist com as suas gravações que me conquistaram. E não foram poucas. É claro que conhecia algumas delas e gostava. Mas nunca as havia colocado na minha caixinha das favoritas. Pura injustiça da minha parte. Fico devendo minhas desculpas a essa musa, não apenas da bossa nova, mas da MPB, como é justo reconhecer.
Todavia, havia mais nesse despertar. Dentro do espírito de se aperceber de diversas verdades sobre nossos artistas, fui invadida pelo pensamento de que aquelas músicas, de uma beleza ímpar, hoje não teriam espaço. Simplesmente os jovens da atualidade classificariam como tristes as suas melodias. Para eles, a visão de mundo e do próprio país é muito diversa do que havia antes. As letras pareceriam fora de lugar e não satisfariam aos apelos de uma geração despolitizada, desaculturada e vitimada pelo afastamento da convivência com os diferentes e divergentes.
Hoje, até o gosto musical parece ter caído no vazio das ansiedades e dos imediatismos. Não consigo imaginar um jovem da geração "Z" cantando: "isso é bossa nova, isso e muito natural..." ou "...porque no peito dos desafinados também bate um coração". Afinal, pode até bater, mas não parece. O que imagino como leiga no assunto e espectadora desse novo mundo, é que na falta de um coração pulsante, ocupa-se uma mente pronta para absorver o que é mais palatável e menos racional. Em contrapartida, me sinto pronta e aberta para reconhecer o que outrora passara despercebido. Com isso, aproveito para saborear o que não tive olhos para ver, quando foi a minha vez de vivê-lo.




