Quando é preciso fazer silêncio

Foto: Sasun Bughdaryan - Unsplash
Por diversas vezes tenho falado do silêncio em meus textos, e agora me pego mais uma vez com o desejo de explanar isso. No caso, uma vontade surgida em virtude de uma experiência recente que me chamou a atenção.

 Há muitos anos, estive na famosa Catedral de Notre-Dame de Paris. Como foi amplamente divulgado, ela incendiou e, recentemente, foi reconstruída. Em razão dessa complexa reconstrução, tendo a oportunidade de ver de perto esse trabalho primoroso e difícil, resolvi voltar lá para ver o resultado. Quando cheguei, havia centenas de pessoas do lado de fora, esperando para entrar. E quanto mais entravam, mais chegavam, de uma forma tal que rapidamente a igreja ficou lotada de visitantes. Era de se esperar que se ouvissem vários burburinhos, considerando os inúmeros grupos nos quais as pessoas se conheciam. Então, já prevendo esse tipo de situação, a partir de um certo momento, a igreja começou a emitir um curioso pedido de silêncio onde ouvíamos um chiado como se alguém executasse o gesto habitual de fazer isso, e logo após se ouvia a palavra "Silêncio", de uma forma suave e prolongada. Como eu nunca tinha visto nada parecido, fiquei pensando a respeito e, ao mesmo tempo, admirada com o silêncio sepulcral que se instalou, apesar da quantidade de pessoas ali reunidas.

Após sairmos de lá, comentei com o meu marido se seria possível conseguir aquele mesmo comportamento, caso a igreja fosse no Brasil. Por que pensei isso? Porque onde moro, acho difícil as pessoas se controlarem a esse ponto, quando estão acompanhadas de amigos ou parentes. Digo isso com base em uma outra experiência vivida por mim na empresa onde trabalho. Houve um tempo em que se tornou comum nas reuniões periódicas de departamento, a gerente passar o recado de que os funcionários precisavam diminuir a zoada na sala, enquanto trabalhavam. Frequentemente, ela recebia queixas de alguns que se sentiam incomodados com os colegas, cujo tom de voz nas conversas paralelas não era aceitável.

A particularidade desse caso era o fato de que ao expor o problema, ela sempre acrescentava o comentário de que era uma questão cultural e de costumes. Além disso, se tratava de um ambiente com mais de 200 pessoas. Entretanto quando visitava outras filiais da empresa no sul do país, percebia que não havia essa questão, e o silêncio reinava tranquilo nas salas também com inúmeros funcionários.

Só considerando esse caso, sem incluir as centenas de outros, quando as pessoas fazem muito barulho, já fico imaginando como viveriam essas criaturas em países onde até dentro do metrô o burburinho não existe ou é mínimo. As leis são duras e uma conversa em alto som já é motivo para a polícia ser acionada.

Uma amiga, moradora de um país da Europa, me falou que um vizinho de apartamento ameaçou chamar a polícia, porque acreditava que ela estava fazendo um barulho insistente no banheiro dela, situado no andar de cima. Injuriada com a acusação, ela não descansou enquanto não provou a sua inocência e encontrou o verdadeiro culpado: um rato que, no silêncio da noite, com seus ruídos sistemáticos, rompeu a barreira do pouco aceitável pelas pessoas naquele país.

Se buscarmos na Internet, encontraremos inúmeros casos de brasileiros contando, estarrecidos, os casos de intolerância sonora em países da Europa. Então, isso tudo me faz concluir o quanto temos dificuldade de viver com o silêncio. É preciso estarmos imersos em duras regras para aprendermos a aceitar algo que, do nosso ponto de vista, não deveria ser tão radical. Contudo, não é necessário chegar ao ponto de podar o espírito alegre de um povo e sim fazer parte de uma convivência saudável, quando apropriado.

25/02/2026