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| Chalés em Olinda-PE (Imagem: IPHAN-RJ) |
Todas as vezes que passo na saída da minha cidade me pergunto: como puderam abandonar essas quatro casas? Explico: são antigos e históricos chalés em estilo neogótico, curiosamente batizados com o nome de suas donas originais: Julieta, Alice, Beatriz e Zulmira, que as receberam de presente do pai, no início do século passado. São iguais, mas cada casa tem sua cor, um verdadeiro patrimônio. Quando eram conservadas e utilizadas, embelezavam a cidade, uma entrada digna de um cartão postal. Hoje estão em ruínas. Uma delas está ocupada por uma pequena floresta, sem teto e invadida por arbustos nascidos do abandono.
Quando foi que perdemos a noção de memória, história e patrimônio? Vivo a questionar essa realidade. Inúmeras vezes já manifestei a minha indignação por formarmos uma nação sem memória. Até quando ficaremos à mercê daqueles que morrerão e deixarão um legado de destruição? Políticos e empresários viabilizam esse apagamento em troca de lucro e da ignorância alheia.
Se nos descuidamos por um instante, um patrimônio é demolido na calada da noite, como aconteceu em uma grande avenida da cidade do Recife. Uma rede de farmácias comprou um antigo casarão e, antes que a justiça impedisse, mandou demolir durante uma madrugada.
A vigilância precisa ser constante. Outro dia vi a notícia de que os moradores de um bairro tradicional dessa cidade se uniram para impedir a demolição de um outro casarão histórico. Em seu lugar seria construída uma grande loja de uma rede de armazéns a qual já possui inúmeras unidades na cidade e não precisa de mais uma. A ambição dos empresários sobrepuja os interesses das comunidades, assim como aconteceu com o cais, o qual está se transformando em uma paisagem que em nada combina com a cidade ou o local onde está inserido. Tantas vozes gritaram e brigaram para evitar o desmanche, mas a do dinheiro falou mais alto. E como tem falado!
A cada dia, uma relíquia do nosso passado é subtraída. Isso me faz lembrar um texto de uma escritora que relatou, em tom de lamento, sobre o dia em que passou a pé por um trecho da rua onde mora em São Paulo, e viu que haviam demolido antigas casas que guardavam um pouco do clima bucólico de outrora. Porém, foram extirpadas para darem lugar a mais um prédio.
Gosto de acompanhar simpáticos perfis onde fotos de moradias tradicionais são divulgadas. Elas são apaixonantes, das pequenas às grandes. É quando mergulho em um passado no qual pouco vivi, porque algumas ultrapassam minha vivência por aqui. Fico me imaginando morando em uma delas. Consigo ver cada cômodo decorado com móveis alinhados com o estilo da casa. Se tiver um terraço então, é o toque final. É claro que um jardim e um quintal fazem parte do pacote. Afinal, casa de verdade tem que ter espaços para plantas e animais.
Dito isso, fico ainda mais decepcionada com o pouco cuidado que temos com a nossa memória. Ela nos traz identidade, origem, pertencimento. Nos diz de onde viemos e para onde estamos indo. O velho e o novo podem coexistir e conviver: a Europa está aí para nos provar isso, e é para onde pensamos em ir, quando queremos mergulhar na história. Não podemos nos despir do nosso trajeto de vida como país, só porque somos bem mais jovens como nação. Cada povo tem sua própria estrada e as gerações futuras precisam reconhecê-las para saberem como chegaram ao ponto em que se encontram.
É como os quatro sobrados que me remetem a tanta nostalgia. Sem dizer nada, eles nos contam a história de uma família e de um modo de viver de uma sociedade do início do século passado. Mesmo existindo na cidade um instituto para cuidar do patrimônio histórico, ainda assim temos desmandos inconcebíveis. O que nos dá uma certa esperança é ver a parte histórica da cidade ainda sobrevivendo ao tempo, apesar dos históricos pesares.
07/06/2025
