Cada qual com seu Natal

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Como foi o seu Natal? Não consigo evitar a ideia de que essa pergunta inocente carrega em sua essência a potencial possibilidade de uma resposta fora de sintonia com o espírito dessa festa.

É verdade que o estrito sentido de se tratar de uma festa familiar, por si só já é terreno fértil para frustrar essa comemoração. Afinal o conceito dessa reunião de pessoas unidas pelo laço sanguíneo tem sido deveras afetado pelas realidades vigentes.

Hoje conheço várias famílias separadas pelas diferenças ideológicas e a minha se inclui nesse rol. Partes de um todo agora esfacelado por estranhas crenças não condizentes historicamente. Ou dito de outra forma, simplesmente não fomos educados para isso.

Como algo que vai se resumindo, estreitando, afunilando, a cada ano vamos ficando mais esparsos. De um grande ninho, pequenos nichos trocam fidelidades e Natais. O espírito dessa festa, elo imaginário que abraçaria ramos de uma mesma árvore, já não consegue envolver os seus galhos. É como tentar reunir folhagens de uma Castanhola que crescem em direções opostas, braços abertos cujas mãos não se tocam.

Por um outro lado, na hipótese da coisa chegar ao nível celular ou quase isso, é fundamental olhar por um outro prisma porque é preciso sobreviver, resistir. Sob essa visão, é possível abstrair o sentido geral e buscar em nós mesmos o nosso Natal. É quando nos perdoamos, fazemos as pazes com nós mesmos e nos tornamos nosso próprio amigo secreto. A partir desse reencontro, buscamos compreender as fraquezas alheias e somos impulsionados a levar um pouco de esperança para quem carrega algum tipo de vazio dentro de si, afinal, só compartilhamos, no sentido bíblico, o que preenche o nosso coração. E você, qual Natal viveu?
 
29/12/2024

Qual o seu padrão?

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Essa é uma pergunta à qual tanto é possível não só dar uma resposta simples, mas também, enxergá-la como a ponta de um iceberg. De qual padrão falamos? Do humano. Certamente o mais subjetivo e absurdo dos que conheço. Você se encaixaria nessa pergunta?

Só para citar os mais comuns: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem preto nem branco demais, nem careca nem cabeludo, nem nerd nem lento. E outras tantas réguas. Sempre me pergunto por que se criam padrões humanos se somos a soma dos que vieram antes de nós, e se somos o resultado de uma complexa combinação genética de gerações que nos antecederam?

Se fosse para dar uma resposta rasa, diria que é simplesmente pela necessidade de se encaixar que os seres humanos os criam e para transferir ao mundo necessidades que fazem todo o sentido no individual, mas não no coletivo. É claro que nos sentimos melhor entre os nossos iguais, mas o mundo é também da diversidade.

Algo que me impressiona e me incomoda, por exemplo, no mundo comum das lojas femininas, são as roupas manufaturadas dentro padrões, no mínimo, fora da realidade. Exemplifico: calças e bermudas de cintura alta e estreita. Uma massificação de medidas em um país onde grande parte das mulheres vivem a realidade do sobrepeso. Blusas estreitas com uma numeração conflitante onde uma pessoa pequena não pode ser larga. Se o tamanho é pequeno, também é estreito. Crianças e adultos fora do padrão precisam comprar roupas grandes e ajustá-las. Roupas íntimas são um disparate. Se uma mulher é magra, mas tem as mamas grandes é um problema. E se estiver acima do peso e tiver mamas pequenas, também é um dilema. Existem países que já adotam duas numerações para sutiãs. É o correto. Mas no nosso, isso ainda não é uma realidade.

Mas a coisa não para por aí. O comportamento muitas vezes e, algumas, até de forma gritante, precisa estar dentro de uma forma pré-determinada. Mais ou menos o que enxergamos como "grupinhos" fechados para novos integrantes ou para aqueles que não se enquadram por um motivo qualquer. Empatia muitas vezes se torna uma palavra fora do senso comum.

No mundo em que as diferenças só crescem, quanto menor a tolerância, maior a violência e a dificuldade de conviver, dividir, aceitar, compartilhar e ter empatia. Padronizar as pessoas e o que diz respeito a elas é não naturalizar as diferenças. Hoje, muitos tentam tornar normal o preconceito que nada mais é do que a não aceitação do diferente. Existe país que não criminaliza a manifestação da não aceitação do outro e chama isso de "liberdade de expressão". Um conceito grotesco onde não se leva em conta que o direito de um se encerra quando começa o do outro. Basta! Se essa não for a palavra de ordem, somada à tolerância, será difícil um planeta comportar bilhões de cabeças diferentes.

Mas, Oriana, você foi longe! Entretanto, tudo isso são apenas elos de uma mesma corrente em um mundo de seres de peles e cabelos diferentes, línguas, costumes e tamanhos diversos, além de suas características individuais. Isso tudo quando possivelmente o ser humano foi criado para apenas ter como única diferença dos outros seres do planeta o fato de ser racional.

Assim como de perto ninguém é normal, por dentro somos todos iguais, mas tudo o que o humano faz é condenar o outro pela capa que carrega ou pela roupa que veste a sua carne. É o pré + conceito. Isso divide, separa, cria padrões, raças, povos e fronteiras.

Se continuarmos seguindo este caminho, teremos uma nova pangeia. Só que dessa vez humana, onde nosso planeta será classificado como não habitável, se igualando a outros. Mas não por ter sido criado para isso e sim por ter sido destruído por habitantes que causaram a própria aniquilação por nunca, em milhões de anos, terem aceitado que eram fundamentalmente iguais e terem se dividido até não poderem mais conviver.

06/12/2024