Literalmente. Digo isso porque não me refiro a algo que decaiu até sucumbir. Falo do inesperado ato de despencar ao chão com ou sem plateia. Pois sim, aconteceu comigo. Claro que não foi a primeira vez, mas fazia tempo que não vivia esse constrangimento ou, para os frequentadores das redes sociais, cena de Tik Tok ou de Instagram.
O consolo é saber que não foi uma questão de idade, falta de equilíbrio ou atenção, mas primordialmente pelo resultado de uma obra mal-acabada de uma cidade. O fato é que um passo no lugar onde havia a lacuna de uma calçada, foi o vilão de um corpo lançado ao chão, e de um impacto quase desprovido de qualquer ação atenuadora. O resultado para quem estava de bermuda foi sofrer arranhões em três lugares a partir do joelho. Além disso, tive um cotovelo ralado, e parte superior de uma mão e inferior da outra também. Precisei fazer uma autoinvestigação para entender o posicionamento dos machucados.
Essa foi a segunda queda depois de adulta. Eu não percebi que iria cair e quando dei por mim, já estava no chão. Nessas situações, existe uma pequena fração de tempo em que a consciência parece ter se ausentado. Ao retornar, o cérebro sofre um pequeno curto-circuito, levando seu dono a não compreensão da causa do acontecido. Isso me faz lembrar a minha avó. Uma vez ela caiu assim que desceu de um ônibus e deu duas passadas. Segundo ela, um espírito a empurrou. Essa foi a explicação que encontrou ao se dar conta de que caíra de testa no chão sem ter tropeçado ou pisado em algum buraco.
No meu caso, nas duas quedas, concluí que a alma responsável pelos incidentes foi a minha mesmo, com o agravante de que, nessa última, um dos espectadores que assistiu à cena foi quem me explicou o motivo. É preciso dizer que na ocasião, para me levantar tive a ajuda de duas pessoas e, nesse processo, já fui perguntando como havia caído. Uma delas já foi contando, afinal testemunhara a cena de camarote. Queda com plateia definitivamente não é uma das coisas mais divertidas para a vítima.
Como já vivi as mais diversas situações, um dia aconteceu de eu achar que ninguém tinha visto quando me esborrachei no chão, após ter saído do carro e ter calculado mal a altura da calçada. Eu não havia visto ninguém por perto, então fiquei sentada ali avaliando a ralada na perna. Enquanto isso, meu marido que havia me deixado no carro, retornou, mas não me viu. Nesse momento, olhando para um lado e outro com uma expressão de interrogação, ele teve a sua pergunta respondida por uma transeunte que me vira sentada no chão. Ela apontou para baixo na minha direção, com cara de quem diz: "Está procurando por ela? Está aqui". Foi quando descobri a testemunha ocular daquela queda ridícula. E a minha sensação ficou pior depois que o marido me achou e perguntou como eu havia conseguido cair ali.
Foi por essas e outras que cheguei à conclusão de que nesses casos repentinos não há o que fazer. É sentar e contabilizar o estrago. Diferente de quando a gente sabe que está indo na direção do tombo e tenta se equilibrar, aparar com a mão, ou colocar um pé à frente. Inúmeras vezes utilizei desses artifícios e consegui evitar ou amenizar um possível resultado de um impulso inercial. Contudo, independentemente do desfecho, vai ser sempre uma cena digna de Tik Tok. Na pior das hipóteses, tragicômica.


