Quando a música transpõe muros

Sou uma grande fã do rock, não o heavy metal ou algo do tipo. Mas sim aquele trabalhado que mexe com a alma dos seus admiradores e, por vezes, também com o corpo. Aquele responsável por viagens ao centro do nosso universo, como o do Pink Floyd ou o que eleva o astral, como o do Bon Jovi ou do ex-Beatle Paul McCartney. Isso me fez e faz apreciar muitos vídeos de shows dos astros que admiro e, quando oportuno, assistir pessoalmente aos concertos. Coisa rara, de fato, mas que nas pouquíssimas vezes em que foi possível, significou até mesmo sentir o sabor de um sonho realizado, como quando fui ao de Paul e ao de Elton John. 

Foi seguindo essa paixão e observando outros fãs que pude ter a certeza de que a música pode, realmente, transpor muros. Explico: com o advento da existência dos países da "Cortina de Ferro", as pessoas que estavam do outro lado não podiam ter acesso às músicas do ocidente. Não era permitido aos artistas venderem seus discos naqueles países, nem fazerem shows.

A certa altura da história contemporânea, a "Cortina de Ferro" se rompeu e ante a abertura dos caminhos, os artistas antes banidos, começaram a ter acesso a esse público. Um deles foi exatamente o ex-Beatle, Paul McCartney. Em uma grande e histórica apresentação, ele realizou um show no centro de Moscou, um fato sui generis. Ao assistir ao vídeo completo desse acontecimento, o que saltou aos meus olhos foi descobrir o quanto aquele público sabia cantar as suas músicas. Muitas pessoas, apesar de toda a proibição, tinham discos dos Beatles, obtidos no "mercado negro", antes da abertura do país, uma transgressão perigosa na qual se aventuravam por seus ídolos da música. No final das contas, não havia Cortina de Ferro ou muro de Berlim que barrasse o caminho da música dos quatro rapazes de Liverpool, ou mesmo de vários outros astros do rock ovacionados do lado de cá dos muros.

Em uma outra situação, quando a "Cortina de Ferro” ainda se mantinha erguida, Elton John foi fazer um show na extinta União Soviética, algo completamente atípico e inesperado, mas que só foi possível com a promessa de o artista se comportar conforme protocolo exigido pelo governo daquele país. O show aconteceu e foi gravado. Um dia, vi o respectivo DVD e resolvi comprá-lo.  Ao assistir, outra vez fiquei extremamente admirada com o público. Para uma nação onde o povo não podia manifestar o tipo de alegria advinda de um rock, a plateia parecia ter esquecido dessa prerrogativa e ter se entregue aos prazeres das empolgantes notas musicais, o que não ficou de graça.  Soube depois, que após aquele show, houve um outro no dia seguinte, entretanto, o público foi proibido de manifestar reação às músicas. Fiquei imaginando o esforço sobre-humano que fizeram para conter seus corpos contagiados e estimulados pelos hits dançantes daquele artista, mesmo sendo uma apresentação solo, ele e o piano.

Alguns anos depois, quando imaginava que não havia mais histórias sobre o poder da música de romper esses muros, me deparei com o show dos Rolling Stones, em Havana. Um público gigantesco, também ao ar livre como na Rússia e, de repente, o que não faltava eram fãs dessa banda antológica, gente de todas as idades. Sabe Deus por onde aquele povo todo sorvia os sucessos do grupo. O fato é que a novidade era o conjunto estar lá. As músicas, estas haviam entrado muito antes, com ou sem barreiras, muros, proibições ou coisa que o valha. E é por isso que admiro tanto o poder da música, especialmente o rock, porque ela sempre vai chegar aonde o seu público está.

14/03/2026