Cada qual com seu Natal

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Como foi o seu Natal? Não consigo evitar a ideia de que essa pergunta inocente carrega em sua essência a potencial possibilidade de uma resposta fora de sintonia com o espírito dessa festa.

É verdade que o estrito sentido de se tratar de uma festa familiar, por si só já é terreno fértil para frustrar essa comemoração. Afinal o conceito dessa reunião de pessoas unidas pelo laço sanguíneo tem sido deveras afetado pelas realidades vigentes.

Hoje conheço várias famílias separadas pelas diferenças ideológicas e a minha se inclui nesse rol. Partes de um todo agora esfacelado por estranhas crenças não condizentes historicamente. Ou dito de outra forma, simplesmente não fomos educados para isso.

Como algo que vai se resumindo, estreitando, afunilando, a cada ano vamos ficando mais esparsos. De um grande ninho, pequenos nichos trocam fidelidades e Natais. O espírito dessa festa, elo imaginário que abraçaria ramos de uma mesma árvore, já não consegue envolver os seus galhos. É como tentar reunir folhagens de uma Castanhola que crescem em direções opostas, braços abertos cujas mãos não se tocam.

Por um outro lado, na hipótese da coisa chegar ao nível celular ou quase isso, é fundamental olhar por um outro prisma porque é preciso sobreviver, resistir. Sob essa visão, é possível abstrair o sentido geral e buscar em nós mesmos o nosso Natal. É quando nos perdoamos, fazemos as pazes com nós mesmos e nos tornamos nosso próprio amigo secreto. A partir desse reencontro, buscamos compreender as fraquezas alheias e somos impulsionados a levar um pouco de esperança para quem carrega algum tipo de vazio dentro de si, afinal, só compartilhamos, no sentido bíblico, o que preenche o nosso coração. E você, qual Natal viveu?
 
29/12/2024

Qual o seu padrão?

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Essa é uma pergunta à qual tanto é possível não só dar uma resposta simples, mas também, enxergá-la como a ponta de um iceberg. De qual padrão falamos? Do humano. Certamente o mais subjetivo e absurdo dos que conheço. Você se encaixaria nessa pergunta?

Só para citar os mais comuns: nem alto nem baixo, nem gordo nem magro, nem preto nem branco demais, nem careca nem cabeludo, nem nerd nem lento. E outras tantas réguas. Sempre me pergunto por que se criam padrões humanos se somos a soma dos que vieram antes de nós, e se somos o resultado de uma complexa combinação genética de gerações que nos antecederam?

Se fosse para dar uma resposta rasa, diria que é simplesmente pela necessidade de se encaixar que os seres humanos os criam e para transferir ao mundo necessidades que fazem todo o sentido no individual, mas não no coletivo. É claro que nos sentimos melhor entre os nossos iguais, mas o mundo é também da diversidade.

Algo que me impressiona e me incomoda, por exemplo, no mundo comum das lojas femininas, são as roupas manufaturadas dentro padrões, no mínimo, fora da realidade. Exemplifico: calças e bermudas de cintura alta e estreita. Uma massificação de medidas em um país onde grande parte das mulheres vivem a realidade do sobrepeso. Blusas estreitas com uma numeração conflitante onde uma pessoa pequena não pode ser larga. Se o tamanho é pequeno, também é estreito. Crianças e adultos fora do padrão precisam comprar roupas grandes e ajustá-las. Roupas íntimas são um disparate. Se uma mulher é magra, mas tem as mamas grandes é um problema. E se estiver acima do peso e tiver mamas pequenas, também é um dilema. Existem países que já adotam duas numerações para sutiãs. É o correto. Mas no nosso, isso ainda não é uma realidade.

Mas a coisa não para por aí. O comportamento muitas vezes e, algumas, até de forma gritante, precisa estar dentro de uma forma pré-determinada. Mais ou menos o que enxergamos como "grupinhos" fechados para novos integrantes ou para aqueles que não se enquadram por um motivo qualquer. Empatia muitas vezes se torna uma palavra fora do senso comum.

No mundo em que as diferenças só crescem, quanto menor a tolerância, maior a violência e a dificuldade de conviver, dividir, aceitar, compartilhar e ter empatia. Padronizar as pessoas e o que diz respeito a elas é não naturalizar as diferenças. Hoje, muitos tentam tornar normal o preconceito que nada mais é do que a não aceitação do diferente. Existe país que não criminaliza a manifestação da não aceitação do outro e chama isso de "liberdade de expressão". Um conceito grotesco onde não se leva em conta que o direito de um se encerra quando começa o do outro. Basta! Se essa não for a palavra de ordem, somada à tolerância, será difícil um planeta comportar bilhões de cabeças diferentes.

Mas, Oriana, você foi longe! Entretanto, tudo isso são apenas elos de uma mesma corrente em um mundo de seres de peles e cabelos diferentes, línguas, costumes e tamanhos diversos, além de suas características individuais. Isso tudo quando possivelmente o ser humano foi criado para apenas ter como única diferença dos outros seres do planeta o fato de ser racional.

Assim como de perto ninguém é normal, por dentro somos todos iguais, mas tudo o que o humano faz é condenar o outro pela capa que carrega ou pela roupa que veste a sua carne. É o pré + conceito. Isso divide, separa, cria padrões, raças, povos e fronteiras.

Se continuarmos seguindo este caminho, teremos uma nova pangeia. Só que dessa vez humana, onde nosso planeta será classificado como não habitável, se igualando a outros. Mas não por ter sido criado para isso e sim por ter sido destruído por habitantes que causaram a própria aniquilação por nunca, em milhões de anos, terem aceitado que eram fundamentalmente iguais e terem se dividido até não poderem mais conviver.

06/12/2024

Eleitor, por favor, vote em mim

Além de uma súplica atual e um trecho de uma música composta por Rita Lee, é também uma frase que possivelmente reverbera, a cada dois anos, na cabeça de muitos políticos brasileiros. Uns têm esperança de conseguir o seu primeiro mandato; outros apelam para uma reeleição, muitas vezes a terceira, quarta ou mais, quando fazem do cargo uma profissão.

O eleitor na mesma periodicidade tem de exercitar a capacidade de se manter acreditando em uma espécie treinada para convencer seu público-alvo. Eles são especialistas em pensar em si mesmos, mas fazer com que os outros se encham de esperança de que algo mude, o que raramente acontece. E essa é a palavra mágica. Ela tem o poder de forjar uma realidade na cabeça do eleitor. Nesta realidade, ele se vê em uma situação diferente daquela em que está, efetivamente, inserido. Cansado de viver na mesmice de sua condição, ele precisa crer na chegada da tão sonhada mudança.

Ainda assim, não cheguei a uma conclusão exata do que se passa na cabeça do eleitor. Mas na do político dá até para imaginar. Na cidade em que moro, por exemplo, o prefeito teve dois mandatos: no primeiro e, na maior parte do segundo, pouco se viu da sua atuação. Ao se aproximar da eleição em que lançaria a sua candidata, se apressou em fazer todas as benfeitorias não executadas nos anos anteriores.

Eu nunca havia visto tanta obra, em tão pouco tempo. No entanto, o que chamou a atenção, inclusive dos seus opositores, foi a quebradeira na cidade nos dias próximos à eleição. Calçadas e praças em lugares que afetariam muitas pessoas e que não necessitavam de obras urgentes ou sequer precisavam de manutenção, estavam sendo reformadas. Um pouco antes das eleições de 2024, fui a uma cidade interiorana onde meu marido nasceu, e lá vi o mesmo cenário. Usam das mesmas fórmulas, só muda a cidade.

Fico impressionada com o afã na véspera da ansiada votação do primeiro turno. Nessa última vez, o sábado foi um dia para torcer pelo seu fim. Como moradora de um prédio próximo a uma avenida, tive de encontrar alguma graça em ver infinitas carreatas que se sucediam quase que ininterruptamente. Aproveitei para observar o quanto as pessoas se entorpecem nessa época. Cada cabo eleitoral se transforma em um torcedor em final de campeonato. Nessa hora, esquecem todas as agruras de seu cotidiano decorrentes dos malfeitos de políticos, cujos rostos estão estampados em suas camisas e bandeiras.

Enquanto a grande corrida eleitoral se aproxima, tento me manter apenas à espreita. Ante meus princípios, não me demoro a fazer as minhas escolhas. Muito poucos políticos representam a maioria e quase nenhum carrega em seu cerne o interesse pelo bem do cidadão. Sobra, então, uma minoria ínfima para dela eu pinçar um, no qual arrisco depositar a minha confiança por meio da urna. Tenho minha própria lista de exigências e não me seduzo com fake news ou notícias via redes sociais. Nestas as mentiras se misturam às verdades e criam legiões de seguidores que se recusam a pensar, apenas se deixando levar.

Todos os anos, voto na mesma zona eleitoral, onde sempre encontro um mar de propagandas, mais conhecidas como "santinhos" e a velha piada pronta de que é realmente uma "zona", no mau sentido, é claro. Deixo sempre para ir em um horário mais tranquilo. Mesmo assim me deparo com fanáticos de plantão, torcidas organizadas de políticos e partidos. Creio que isso seja parte do embevecimento periódico provocado pelas urnas, um artefato travestido de esperança, assim como as loterias e jogos de azar. Dessa vez, vai! Assim diz o apostador, ou melhor, o eleitor!

02/11/2024

A misteriosa receita de arrumadinho

Dos inúmeros arrumadinhos (prato típico do Nordeste, com feijão fradinho, charque, farofa e vinagrete) que comi ao longo do tempo, nenhum se assemelhou àquele do restaurante, cujo nome já explica parte dessa exclusividade: Xinxim da Bahia.

Isso mesmo. O dono e cozinheiro era um baiano. Fugido de sua terra. A razão residia em uma história de amor: ele não somente roubou o coração de uma moça, mas também a própria. Entretanto, o agravante motivador da fuga foi o coração dela já ter um dono e, este, claro, não aceitar a perda repentina do seu amor para um amante concorrente.

Quem ganhou fomos nós. Dessa epopeia surgiu um bar de cardápio único com petiscos que ficaram na lembrança degustativa dos frequentadores locais. Existiam diversos pratos típicos dos soteropolitanos, mas o carro-chefe era o arrumadinho. Uma receita composta por um creme o qual era o segredo do sucesso. Até tentamos obter alguma pista sobre os ingredientes na época, mas não obtivemos nenhum êxito. Era um segredo bem guardado. Nem os filhos nem os garçons se atreviam a soltar qualquer informação a respeito, então nunca soubemos o que criava aquele sabor tão especial.

Meu marido, um apreciador da culinária, até tentou reproduzir o sabor do feijão do Xinxim, mas todas as tentativas foram fracassadas. Com o fim do bar, ficamos órfãos de seus pratos baianos e, especialmente, do inesquecível arrumadinho, até hoje festejado por antigos clientes, quando o assunto se faz presente. Por que o bar fechou? A explicação nos foi dada pelo próprio dono: sempre manteve o desejo de voltar à sua terra natal e terminar seus dias lá, mas temia o seu rival amoroso. Então, ao saber do falecimento deste, imaginou que o perigo havia cessado e poderia voltar. Diante desse cenário, atendendo aos anseios do seu coração, fecharia seu negócio e retornaria ao seu verdadeiro lar.

O curioso disso foi a filha já adulta ter decido ficar, abrir um bar com nome semelhante ao outro, mas não usar as receitas do pai. Fomos lá cheios de expectativa de reencontrar aqueles sabores únicos, mas nos deparamos com o usual, ou seja, mais do mesmo. Ela absorveu os costumes locais, mas, ao não inovar, aproveitando a experiência e o nome do pai, seguiu o inevitável destino dos que não buscam por ter o seu diferencial. Assim findaram os resquícios do Xinxim.

05/10/2024

Não atendo

Foto: Priscilla Du Preez

Entre 40 e 60 chamadas! Essa foi a quantidade de ligações recebidas por mim nos três primeiros dias após mudar de operadora. Claro! Não eram todas da minha ex-companhia telefônica, mas no cômputo geral era o resultado do telemarketing desenfreado juntamente com o desespero de resgatar uma ex-cliente.

Após não obterem nenhuma resposta da minha parte, passaram para o plano mensagens jamais ouvidas. Como mudei para um plano familiar, além de mim, meu filho e marido migraram também para a nova operadora. Isso significa que toda a família foi bombardeada com as insistentes tentativas de contato.

 Se antes já era difícil lidar com as constantes chamadas de telemarketing, naquela situação foi quase obrigatório buscarmos uma solução. Foi quando instalamos um aplicativo, o qual identifica as chamadas e avisa em caso de suspeita de spam ou golpe. Não seria o paraíso, mas agora ficaria mais plausível não atender ou desligar, sabendo que não seria uma ligação relevante.

Antes disso, quando o telefone não identificava o spam, atendíamos algumas vezes e ficávamos em silêncio: o resultado era que sempre desligavam rapidamente. Hoje, curioso, meu marido resolveu atender uma ou outra chamada e viu que agora eles colocam uma gravação para tentar vender um produto. Mudaram a tática em relação àqueles que nada falavam, como nós. O fato é que calejados não atendemos mais e ponto final. Para não passar o dia sendo acionada por um toque, já deixo o celular no silencioso e assim vou colecionando registros de números, cujo bloqueio é inútil, visto que as máquinas possuem recursos para utilizar outros não bloqueados por nós.

É como uma roda-viva; não tem fim. Mesmo usando mecanismos que barram algumas origens, muitas outras passam e conseguem alvejar os despreparados. Fico imaginando a quantidade de pessoas atingidas pelos golpes. Idosos são os alvos preferidos. Creio que dentre os milhares abordados, muitos caem nas armações tecnológicas desses especialistas em ludibriar pelas vias telefônicas.

Já não faço mais ideia de quantos parentes e amigos receberam ligações de falsários se passando por bancos ou cartões de crédito, além das simulações de sequestro de algum ente próximo. E posso me incluir nessa lista. Sempre que isso acontece, não consigo evitar pensar que todo o trabalho e energia desses estelionatários poderiam ser utilizados em algo positivo para eles e para a sociedade. Eles desperdiçam inteligência e tempo em algo que um dia será a bancarrota deles. Esse dia sempre chega e cobra a conta. Enquanto isso, nós é que pagamos e nos desgastamos para nos defender ou reparar o mal-feito desse submundo. Dito isso, não sei ainda quem irá nos salvar, mas deixo aqui o meu desabafo e a indicação do uso de aplicativos de alerta de ligações suspeitas.


07/09/2024

Você se parece com quem?

Foto: Alexander Grey

Aquele seria mais um dia de retorno do estágio de onde eu saía para ir à aula, na faculdade. Na época, passava por uma rua a qual começava reta e fazia uma curva, onde havia uma farmácia". Foi exatamente nesse ponto que tomei um enorme susto ao me deparar com uma criatura igual a mim. É claro que o sangue desceu imediatamente para as pernas. Levei alguns incontáveis segundos para compreender o que se passava, tempo suficiente para me refazer e as pernas saírem do estado de esmorecimento em que estavam começando a entrar.

O cérebro é rápido o suficiente para constatar que, dada uma situação incoerente, é preciso procurar uma explicação lógica. Então, em milésimos de segundos compreendi aquela imagem. Ela se tratava do meu próprio reflexo em um grande espelho do chão ao teto, localizado no canto da parede da farmácia. Ao se situar na curva, refletia a imagem dos transeuntes da sua calçada, uma passagem bastante movimentada por ser caminho da universidade onde eu estudava. Desconfio até que a posição do famigerado era proposital para suscitar esse tipo de desconfiança nos desavisados.

Isso foi apenas uma introdução para pensarmos nas diversas possibilidades de descobrirmos nossos sósias mundo afora. O efeito disso pode ser cômico ou trágico a depender da situação. Meu cunhado, por exemplo, foi uma dessas pessoas que teve a sorte de cruzar com seu sósia quando, em um carnaval, foi confundido diversas vezes com ele - uma personalidade popular entre os foliões - diferente de Jean Charles, o brasileiro morador de Londres, o qual foi confundido com um terrorista.

E você, já encontrou seu quase gêmeo por aí? Houve um tempo em que me achavam parecida com uma atriz de novela. Consequentemente, ela se transformou em meu avatar no quadro de tarefas da minha equipe, no local de trabalho. É impressionante como existem pessoas parecidas neste planeta. Outro dia um colega de trabalho fez uma correlação de pessoas da nossa empresa com seus sósias famosos. Foi surpreendente.

Na época em que o ocidente caçava Osama Bin Laden, um outro cunhado meu foi advertido pelos colegas de trabalho para não sair do país. Eles pegaram uma foto dele, colocaram um turbante e a cópia do terrorista estava feita. Até eu me espantei ao ver a montagem. Por precaução, o aconselhamos também a não cruzar as fronteiras.

No entanto, pensando sobre a questão, um aspecto me deixa bastante confusa. Isso ocorre quando vejo uma pessoa jovem, muito semelhante a algum conhecido meu, quando tinha a mesma idade. Confesso que esse é sempre um cenário no qual meus neurônios ficam em polvorosa. A primeira pergunta é: como pode? É o tipo de visão dificilmente compreendida pelo cérebro. Um duvidoso retorno ao passado. Vez por outra isso acontece, beirando o estranho. Entretanto, não deveria, porque assim são os humanos e o planeta está repleto de sósias.

Se pararmos para pensar a respeito é mais um elemento a corroborar a nossa semelhança, um fator aproximador. No entanto, a humanidade segue se agarrando às diferenças e supervalorizando-as. É onde nascem os preconceitos e intolerâncias, quando desconhecemos o outro e achamos que somos melhores.

Costumo me perguntar do que o ser humano precisa para compreender que somos fundamentalmente iguais. Assim como existem as semelhanças físicas, existem as psicológicas. E nas voltas da vida, onde a roda gira, ele pode encontrar o seu espelho e ser vítima dele. Mas há esperança: tudo depende de como enxergamos os nossos iguais e essa visão pode mudar. Para melhor.

02/08/2024

Beija-flor briga?

Foto de Zdeněk Macháček na Unsplash

Briga.

Eu não sabia disso. Foi um choque descobrir que uma criaturinha tão pequena, com ares tão singelos, assim como o seu nome sugere, além de remeter ao poético e ao belo, seja tão briguenta. Só acreditei porque vi. Ao ver, duvidei e fui pesquisar.

Todo mundo, ou pelo menos a maioria das pessoas, se encanta ao ver um beija-flor, fazendo jus a seu nome. Da mesma forma acontece comigo. Em nome desse sentimento, resolvi comprar alguns bebedouros para essa espécie de pássaro e colocá-los na minha varanda. Nos primeiros dias, foi puro encantamento, mas isso não durou muito. Um dia, estava observando, da sala, esse animalzinho matando a sede. Quando ele se afastou e um colega se aproximou para também molhar o biquinho comprido, o outro logo fez carreira e o afastou com uma forte trombada. Mais uma tentativa e outra trombada ainda mais violenta. Após essa, o colega ao perceber a menção de ser novamente rechaçado, voou para longe.

O meu primeiro pensamento foi o de que se tratava de um caso isolado de um encrenqueirinho de plantão. Então, resolvi agir em defesa do beija-flor agredido, decidindo que à próxima ameaça de ataque, eu espantaria o agressor para que o bebedouro pudesse ser compartilhado. Ledo engano. Antes que eu pudesse reagir, a pobre vítima foi atacada, repentinamente, pelo briguento. Nem sei de onde ele surgiu. Concluí que estava vigiando à distância e partiu para a defesa do seu território assim que o colega pousou para beber água. Nem deu tempo de tomar um gole. Ao invés disso, tomou, literalmente, uma voadora.

Fiquei indignada com o danadinho e com a minha impossibilidade de impedir aquela injustiça do reino animal. O jeito foi aceitar, tristemente, a minha condição de espectadora de briga de gente pequena.

No dia seguinte, fui comentar com o meu filho sobre o acontecido. Assim que ouviu a minha história, logo rebateu:
- Mãe, não interfira na natureza.
Em seguida concluiu:
- Deve ser uma espécie territorialista.
Não havia pensado nisso. Eureka! Fui ao Google e logo confirmei: são territorialistas e briguentos. Caí das nuvens!

Após essas descobertas, para diminuir a discórdia entre as avezinhas bicudas, tivemos a ideia de colocar os bebedouros separados, colocando um na janela do quarto do meu filho e deixando o outro na varanda. Enorme foi a nossa surpresa, quando começamos a receber a visita de um sibito, um gracioso passarinho de um bico também fino e canto curto e agudo, porém agradável. Imaginamos que o beija-flor brigão iria botá-lo para correr, ou melhor, voar. Contudo, isso não aconteceu. Por algum motivo, ele respeita o sibito ou talvez o tema.

Fiquei tentando entender todo esse contexto. Lembrei que nós humanos fazemos muito isso: batemos nos de casa, mas tratamos bem ou respeitamos os de fora por medo, respeito ou pudor. O fato é que a doce imagem que eu nutria do beija-flor ficou abalada. Queria nunca ter conhecido essa face desse bichinho tão hábil e gracioso, que consegue bater as asas 80 vezes por segundo e de uma forma tal que paira no ar como nenhum outro pássaro. Um capricho da natureza.

No entanto, como tudo tem seu lado bom e ruim, da mesma forma que há pessoas boas com defeitos incômodos, há essas criaturinhas singelas e briguentas. Eu até acharia mais "entendível" se fosse uma atitude contra um pássaro de outra espécie, mas talvez ele seja inteligente o suficiente para saber que só consegue brigar com gente do tamanho dele. Vá saber o que a natureza reservou para essa avezinha tão inspiradora! Mas só quando não está rivalizando!

06/07/2024

Vai pentear macaco!

Foto: Park Troopers

Por volta dos meus onze anos, li uma divertida crônica escrita por Fernando Sabino a qual fazia parte do livro de Português da série em que cursava na época. Ela tratava de uma história onde um pesquisador enviava um telegrama para um amigo solicitando um ou dois macacos para um estudo, mas por um erro do telegrafista a mensagem seguiu com a solicitação de "1002 macacos". Imaginem a confusão após o a amigo enviar um carregamento inicial com centenas de criaturinhas dessa espécime.

Gostei tanto dessa história que mostrei para a minha mãe, uma leitora fiel do autor. Depois desse dia, ela, uma simpatizante dos ditados populares, adicionou ao já conhecido "vai pentear macaco!" a observação de que haviam 1002 macacos soltos para serem penteados. Lembrei dessa singela bronca, que por vezes recebia dela, num dia em que fui invadida pela recordação desses ditos, os quais ela soltava aqui e ali quando a oportunidade se fazia presente.

0 humor da minha mãe pairava em suas tiradas e piadas juvenis cujos temas se adequavam a nossa idade. Vez por outra conto as mesmas nos momentos em que se encaixam. Uma delas é a velha historinha do menino que saiu para comprar sabão, repetindo o mandado recebido e levou um tropeço, trocando imediatamente o "sabão sabão" por "toucinho toucinho". Ela tinha algumas dessas micro histórias guardadas na manga para soltar na hora certa. De sorte que algumas delas também coloquei nos meus guardados da memória.

Acho que vez ou outra a importunava com algo que queria muito ou reclamava de coisas as quais discordávamos só para ouvir frases do tipo "vai ver se estou lá na esquina!" ou "vai lamber sabão,  menina!". Não posso dizer que não me divertia com isso. Ela era boa em zoar com a gente quando dávamos motivo. Meu irmão por exemplo, era um dos seus alvos e eu achava graça quando ela começava a falar na hora do almoço que a vizinha tava doida para comer a nossa comida e logo surgiria perguntando por esse ou aquele prato. Isso acontecia porque ele costumava perguntar da área de serviço em alto e bom som qual o almoço do dia e fazer suas observações a respeito. A questão era: o local reverberava a sua voz de tal modo que os vizinhos do térreo ouviam toda a conversa claramente. Uma cena que se repetia nos finais de semana quando ele sabia que a refeição era algo diferente.

Mas o meu irmão também gostava de zoar de coisas que ela dizia, por isso ela já se antecipava e falava o que ele iria dizer. Graça de um, piada do outro. Frases de livros que ela apregoava, logo se transformavam em piadas caseiras. Dois livros que marcaram esse período foi "Otimismo em gotas" e "Não erre mais". Se ela tentava nos ensinar alguma lição desses livros e ela mesma caísse na esparrela de não cumprir o ensinado, isso se transformava em uma auto-armadilha. E ele era especialista em flagrá-la quando escorregava em seus próprios ensinamentos. Mas isso não a deixava zangada. Ela ria de si mesma e dizia que também estava aprendendo. Desconfio que essas brincadeiras nos ajudavam a fixar as lições por trás de tudo.

Não sei exatamente em qual momento isso foi se perdendo e a vida foi se tornando mais dura e séria. Tenho meus palpites, mas nada acrescentaria ao resultado do que se foi. Então vou me divertindo com fragmentos do que tivemos de melhor. É verdade que o cérebro assimila mais facilmente os fatos ruins, mas por outro lado, o coração guarda bem guardado os bons, e é nesse lugar que gosto de içar as melhores lembranças de outrora e rir novamente delas. Quanto a você que anda guardando coisas ruins, vai pentear macaco!

01/06/2024

Onde está o asfalto?

Foto: Jachan Devol

Estava passando por uma avenida qualificada também como rodovia estadual, localizada na saída da cidade em que moro, quando percebi que o asfalto estava sendo extraído. Rapidamente, percebi que ali haveria um recapeamento, mas só depois de observar atentamente, constatei que haviam retirado algumas camadas antes colocadas.

À primeira vista, pode parecer algo corriqueiro para a manutenção de uma via urbana ou estrada, entretanto o acúmulo lateral que restou dos antigos calçamentos, tornou-se um registro dos processos de restauração ali executados. Era como camadas em um tronco de árvore que denota a sua idade, conta a sua história. Aqueles resquícios de asfalto nos contam sobre a curta vida útil desse derivado de petróleo em uma via de grande fluxo e sujeita a intempéries e eventuais cargas pesadas.

Não é preciso ser um expert em obras ou construção de estradas para perceber o desperdício e a falta de compromisso de diversos governos que a cada véspera de eleição fazem esse tipo de obra para lembrar que trabalham pela cidade, estado ou mesmo país.

Outro dia, peguei um táxi e o motorista como ex-funcionário de uma empresa de engenharia que asfaltava vias públicas, nos contou como faziam esse trabalho. A ideia era aplicar uma camada mais fina que o especificado, para economizar e ficar com mais dinheiro e a obra não durar, permitindo a possibilidade de uma nova manutenção e mais dinheiro para as empreiteiras. Perguntamos se era sempre assim e como a fiscalização permitia isso. A explicação foi simples: sempre compravam o fiscal. E arrematou, reafirmando que todas as empresas que prestam esse tipo de serviço fazem o mesmo, daí o motivo das vias esburacarem a cada novo inverno.

Após ouvir essa revelação, tive a certeza de que a questão das avenidas se deteriorarem todos os anos era algo proposital e não um acaso provocado pelo excesso de chuvas sazonais. Até porque se já é algo esperado, o normal e honesto seria fazer uma boa estrutura para suportar as invernagens. Assim como ocorre em outros países que possuem ao menos um pouco de seriedade e compromisso com o dinheiro dos contribuintes.

Foi por lembrar desse episódio que quando vi as diversas marcas de recapeamento voltei a me indignar, ao invés de ver com bons olhos o que parecia ser um trabalho de cuidado com a cidade. Não. Não poderia ser. Inúmeras vezes essa via esteve em obras, numa frequência tal que dá a impressão de estar sempre nesse estado. Essa camada seria só mais uma dentre tantas de dinheiro despejado e seria retirada para que tudo recomeçasse novamente.

Para onde terá sido levado esse lixo tão poluente? Foi automático o meu lamento e espanto ao me deparar com aquele cenário onde os políticos costumam falar "o transtorno passa e o benefício fica". Nesse caso, o benefício é de uma efemeridade tal que o transtorno, ao contrário, parece perene e está sempre lá.

04/05/2024

Qual o seu nome?


diariodonordeste.verdesmares.com.br/ceara/

Essa questão de registrar nome dá o que falar. É um assunto que me faz lembrar de casos curiosos. Não somente daqueles que consideramos excêntricos, mas também os nascidos da junção dos nomes dos pais. Porém, além desses, existem inusitadas cenas associadas a este simples, contudo importante ato para a vida de quem está vindo ao mundo. Algo que pode ser muito normal ou se transformar em um peso eterno, a depender daquele que vai ao cartório selar esta parte do destino.

Pensando nisso, lembrei do pai de uma amiga, o qual foi registrar a filha recém-nascida e pegou em seu bolso o papel onde a esposa havia escrito o nome completo da criança para que entregasse ao tabelião. Porém, ela não havia imaginado que o marido ao ler o nome ali colocado, o olharia várias vezes até concluir não ser a alcunha ideal para a filha, algo que só lhe soou mal quando estava na iminência de concretizar aquela ação definitiva. Como precisava rapidamente encontrar outro, foi assim que chegou em casa com a certidão, carregando o nome de uma personagem de um livro que havia lido. É claro que a esposa ficou chocada com a atitude do marido. No entanto, anos depois a filha agradeceu ao pai pelo nome escolhido.

Há poucos dias ouvi uma história quase igual. Lembrei da minha amiga e da escritora Zélia Gattai, a qual contou no livro Anarquistas Graças a Deus sobre os episódios em que o pai e o vizinho fizeram o mesmo. Em todas as ocorrências, a mãe escolhia o nome e o pai mudava. É o tipo de coisa que é mais comum acontecer do que imaginamos.

No meu caso, meu pai escolheu o nome. Então não houve polêmica, tendo saído para fazer o registro em acordo com a minha mãe. Nunca tive sentimento algum sobre essa escolha. Apenas achava curioso não encontrar uma xará, embora já tenha conhecido pessoas que me falaram ter sido apresentadas a alguém homônima a mim.

Apesar de não ser fruto de uma dessas situações, entretanto, existe um fato recorrente em relação ao meu nome: as pessoas costumam se confundir ao ler a sua grafia. Não que seja difícil ou estranho ao português, mas sempre tenho a impressão de que imaginam ser um outro nome, porém escrito erroneamente. O resultado disso é que terminam por pronunciar o que acham ser o correto, e sei que sou eu por causa do sobrenome. Isso costuma acontecer em consultórios médicos e laboratórios, quando é a minha vez de ser chamada.

E sempre foi assim até que um dia ocorreu algo diferente ao me dirigir a uma agência bancária, a fim de resolver um problema com a minha conta. Fui encaminhada a uma atendente à qual entreguei a minha documentação. Assim que ela leu os meus dados pessoais, passou a repetir o meu primeiro nome insistentemente para que eu confirmasse se era aquilo mesmo. Ao confirmar, ouvi a sincera indagação sobre como um pai teria a coragem de colocar um nome daqueles em uma filha. Diante do inusitado, fiquei sem acão e saí de lá perplexa com a franqueza e o inconformismo da funcionária do caixa, praticamente uma indelicadeza.

Outro dia, lembrando desse fato, meu marido me contou ter ido a um órgão de educação para buscar um documento da sua mãe. No entanto, após informar o nome dela, para que a funcionária localizasse a documentação solicitada, de forma semelhante ao ocorrido comigo, ouviu o nome da sua mãe ser repetido juntamente com a opinião sincera de que era um nome muito feio. Na ocasião, ele estava no início de uma fila de pessoas que aguardavam atendimento, então sem se fazer de rogado, perguntou em alto e bom som o nome dela, e quando ouviu a resposta, devolveu no mesmo tom que era um nome horroroso. Segundo ele, todos na fila começaram a rir e ela, com expressão de contrariedade e rispidez entregou o documento.

Ao chegar em casa e contar à mãe o ocorrido, esta sentindo-se defendida, se divertiu com a história. Quanto ao meu caso, não posso dizer que achei graça ou tive raiva. Pareceu tão despropositada a atitude da bancária em relação ao meu nome, que afinal, foi uma homenagem a uma famosa jornalista e não foi trocado no cartório, que não me abalei com o ocorrido. No fim é uma questão de gosto. Não constrangendo o dono, não importa quem ou como foi escolhido.

06/04/2024


Estranha partida

Foto: Abigail (joyflowerphotography)

Para uma amiga

A última vez que nos encontramos foi em um encontro de mulheres em busca de crescimento interior. Seria um momento de descontração e de aprendizados sobre nós mesmas. Entretanto, uma vez mais ela viu como uma oportunidade de também reviver um passado não resolvido, de revolver velhas feridas.

Bastava cair em um assunto que a remetesse aos traumas de uma criação dolorosa, para cenas daqueles duros capítulos virem à tona. Era uma vida inteira para relembrar, se entristecer, chorar e até achar graça. Uma bagagem que carregava aonde quer que fosse. Uma vivência contraditória entre risos e lágrimas. Uma natureza alegre, uma gargalhada fácil que contaminava quem a cercava e incomodava os não afeitos a esse tipo de expressão positiva.

Quando a conheci na empresa em que trabalhava, logo trocamos amabilidades e nos afeiçoamos. Nossos momentos de tensão no trabalho eram compartilhados e uma apoiava a outra. Eram tempos difíceis, quando precisávamos lidar com chefias de egos inflados e situações de assédios morais. Tenho a convicção de que suportei tais experiências, porque nos piores momentos suas palavras de apoio eram o impulso de que precisava para sair do estado mental em que era jogada a cada episódio depreciativo.

Ela, por seu lado, também sofria suas injúrias como no dia no qual que seu chefe a proibiu de liberar sua risada descontraída no ambiente laboral. Ele a convocou para uma conversa na sala de reunião ao lado da minha. Do meu birô, pude ouvir o choro da minha amiga ao receber aquela ordem descabida. A princípio, fiquei penalizada ao perceber o efeito daquela determinação, mas depois a convenci de fazer daquilo um motivo para rirmos ainda mais. Afinal o chefe era um líder de atitudes incoerentes e, por vezes, dissonantes do cargo que ocupava, como cochilar em reuniões importantes.

Em nossas conversas no horário do almoço, refeição que fazíamos juntas, me divertia com suas histórias de vida, cheias de desventuras. Ela foi a única pessoa que conheci capaz de rir e chorar de uma mesma história, depois de contá-la com exageros e tudo o mais.

Apesar dos pesares do dia a dia na empresa, tivemos momentos divertidos em que fazíamos um trabalho juntas para atendimento externo, fora do nosso ambiente diário. Foram inúmeros almoços ao lado de outros colegas de uma equipe que nos apoiava tecnicamente. Dávamos boas risadas caçoando uns dos outros quando o contexto criava a oportunidade.

Foram seis anos de convivência na empresa. Nesse período, acompanhei o crescimento dos filhos dela ao saírem da adolescência para a vida universitária, bem como os problemas de uma mãe para lidar com essa transição. Testemunhei o seu extremo amor aos filhos e ao marido com o qual viveu uma história permeada de peculiaridades. Além disso, vi de perto o quanto era uma pessoa na qual as emoções estavam sempre à flor da pele e em níveis que beiravam os extremos. Tudo tão exacerbado! Não era uma novidade quando ela somatizava as ocasiões em que a vida lhe colocava à prova. Volta e meia estava no departamento médico. O remédio: quando não recebia um ansiolítico, simplesmente era encaminhada para repouso na enfermaria.

Quando saí da empresa mantivemos a amizade. Nos encontramos algumas poucas vezes a fim de colocar as conversas em dia, mas quando isso não era possível, falávamos por telefone ou via mensagens. No nosso último encontro, pude perceber o quanto ainda vivia assombrada pela traumatizante criação recebida de uma mãe que rejeitava alguns de seus filhos. Tentei ajudá-la, alertando-a de que precisava cuidar para espantar esse fantasma do passado. No entanto, já era muito tarde. O mal já estava feito. O constante sofrimento ao qual se condenou, minou sua vida e saúde.

De repente, minhas mensagens para ela começaram a não ter retorno. Não tinha outra forma de nos comunicarmos e quase dois anos depois da última resposta, fui contactada por sua filha. Ela me contou que a mãe que ela possuía praticamente havia partido. Em seu lugar pousara um espírito triste, estranho, dependente e muitas vezes ausente. Era apenas um corpo quase sem memória que gradativamente desaprende, como uma fita que vai sendo apagada do fim para o começo.  Agora um Alzheimer comandava aquele corpo e alma. Se antes era cheio de emoção, vida, energia, personalidade, após a doença, apenas um olhar distante parece habitá-lo, falando tudo por si só.

Foi um choque receber essa notícia. Tive a sensação de um luto. Sabia que havia perdido a minha amiga. Sem que pudéssemos nos despedir, seu espírito partiu e hoje sou uma vaga lembrança para ela. Queria muito ter lhe dito o quanto foi importante para mim e lhe falar de coisas minhas as quais tenho certeza de que a deixariam feliz. Fiz isso por uma vídeo chamada em uma janela de relativa lucidez dela. Foi como se ela visse uma velha e boa conhecida. Esboçou um sorriso distante, lembrou que eu significava algo de bom para ela e me devolveu um beijo que lhe transmiti. Ela ficava genuinamente feliz com as minhas conquistas. Era alguém com quem eu podia brincar livremente, sempre reagindo com uma divertida risada ou um sorriso meigo, pois era como me tratava.

Saudades de você amiga! E onde quer que sua consciência esteja, sinta a boa energia a qual fluía entre nós. Em sua última mensagem para mim, você deixou registrada a falta que sentia da nossa convivência e que seríamos amigas para sempre. Sim. Seremos.

29/02/2024

O poder de adotar uma mãe

Foto: Patrícia Prudente

Em meio a uma sessão de Pilates, de repente, escutei de um aluno o relato de que havia colocado o nome da tia na sua certidão de nascimento. Como assim? Aquilo me soou um tanto fora do comum, porque simplesmente não sabia nem imaginava que isso seria possível. Fiquei confusa e não consegui processar a informação.

Provavelmente, o mesmo sentimento invadiu a professora que, externando surpresa e tomada pela incompreensão diante do que acabara de ouvir, pediu que ele se explicasse. Ante a revelação inusitada, nos dispusemos a ouvir sobre uma relação de amor maternal entre um sobrinho e uma tia.

O novo filho, segundo as leis, contou que, desde muito pequeno, a tia havia ajudado a criá-lo, quando a mãe precisava se ausentar para trabalhar. Com isso, nasceu uma conexão de mãe e filho que, na adolescência, lhe levou a ir morar na casa da tia. Fez questão de deixar clara a existência de uma boa relação com a mãe, mas que, quando ela se casou pela segunda vez, ele escolheu ficar com aquela que também aquecia o seu coração de filho.

Até aí poderia ser uma história como outras tantas, caso esse rapaz, recém adentrado na maioridade, não tivesse solicitado a inclusão do nome da tia como uma segunda mãe e a adição do sobrenome dela ao seu nome. Diante de nossa admiração, ele justificou, de forma natural, que seria um reconhecimento pela posição que ela sempre ocupara e que, se a lei permitia, seria justo.

É preciso admitir que a atitude do jovem rapaz, embora natural aos seus olhos, certamente, é algo incomum. Após o ocorrido, não pude evitar de refletir a respeito. Fiquei a me perguntar que amor tão grande faz alguém tão jovem ter a atitude de registrar o seu reconhecimento de uma outra maternidade, quando a sua mãe verdadeira também o criou e está viva. Além disso, quis entender como foi possível fazer algo desse gênero, sem um processo judicial e, em que momento, esse direito tinha sido dado aos filhos.

Descobri que a possibilidade de uma multiparentalidade foi o resultado de uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que autoriza o reconhecimento de no máximo duas mães ou dois pais. É claro que é preciso obedecer a uma série de requisitos como comprovar a relação de afetividade e a aceitação das partes envolvidas, incluindo os pais biológicos.

Se ponderarmos um pouco a respeito, podemos enxergar que a decisão resolve uma questão humana. E, sob esse aspecto, é fácil imaginar que seu uso mais frequente seria nos casos em que a família é reconfigurada. Neste caso, o padrasto ou madrasta desenvolve uma afetividade significativa com o enteado e deseja reconhecê-lo, judicialmente, como filho. Porém, depois de ver de perto uma outra possibilidade, de certa forma atípica, pude perceber que muitas outras podem advir dessa janela que se abriu, permitindo consolidar uma forma de amor tão inesperada, quanto a sua judicialização.

06/01/2024