Além de uma súplica atual e um trecho de uma música composta por Rita Lee, é também uma frase que possivelmente reverbera, a cada dois anos, na cabeça de muitos políticos brasileiros. Uns têm esperança de conseguir o seu primeiro mandato; outros apelam para uma reeleição, muitas vezes a terceira, quarta ou mais, quando fazem do cargo uma profissão.
O eleitor na mesma periodicidade tem de exercitar a capacidade de se manter acreditando em uma espécie treinada para convencer seu público-alvo. Eles são especialistas em pensar em si mesmos, mas fazer com que os outros se encham de esperança de que algo mude, o que raramente acontece. E essa é a palavra mágica. Ela tem o poder de forjar uma realidade na cabeça do eleitor. Nesta realidade, ele se vê em uma situação diferente daquela em que está, efetivamente, inserido. Cansado de viver na mesmice de sua condição, ele precisa crer na chegada da tão sonhada mudança.
Ainda assim, não cheguei a uma conclusão exata do que se passa na cabeça do eleitor. Mas na do político dá até para imaginar. Na cidade em que moro, por exemplo, o prefeito teve dois mandatos: no primeiro e, na maior parte do segundo, pouco se viu da sua atuação. Ao se aproximar da eleição em que lançaria a sua candidata, se apressou em fazer todas as benfeitorias não executadas nos anos anteriores.
Eu nunca havia visto tanta obra, em tão pouco tempo. No entanto, o que chamou a atenção, inclusive dos seus opositores, foi a quebradeira na cidade nos dias próximos à eleição. Calçadas e praças em lugares que afetariam muitas pessoas e que não necessitavam de obras urgentes ou sequer precisavam de manutenção, estavam sendo reformadas. Um pouco antes das eleições de 2024, fui a uma cidade interiorana onde meu marido nasceu, e lá vi o mesmo cenário. Usam das mesmas fórmulas, só muda a cidade.
Fico impressionada com o afã na véspera da ansiada votação do primeiro turno. Nessa última vez, o sábado foi um dia para torcer pelo seu fim. Como moradora de um prédio próximo a uma avenida, tive de encontrar alguma graça em ver infinitas carreatas que se sucediam quase que ininterruptamente. Aproveitei para observar o quanto as pessoas se entorpecem nessa época. Cada cabo eleitoral se transforma em um torcedor em final de campeonato. Nessa hora, esquecem todas as agruras de seu cotidiano decorrentes dos malfeitos de políticos, cujos rostos estão estampados em suas camisas e bandeiras.
Enquanto a grande corrida eleitoral se aproxima, tento me manter apenas à espreita. Ante meus princípios, não me demoro a fazer as minhas escolhas. Muito poucos políticos representam a maioria e quase nenhum carrega em seu cerne o interesse pelo bem do cidadão. Sobra, então, uma minoria ínfima para dela eu pinçar um, no qual arrisco depositar a minha confiança por meio da urna. Tenho minha própria lista de exigências e não me seduzo com fake news ou notícias via redes sociais. Nestas as mentiras se misturam às verdades e criam legiões de seguidores que se recusam a pensar, apenas se deixando levar.
Todos
os anos, voto na mesma zona eleitoral, onde sempre encontro um mar de
propagandas, mais conhecidas como "santinhos" e a velha
piada pronta de que é realmente uma "zona", no mau
sentido, é claro. Deixo sempre para ir em um horário mais
tranquilo. Mesmo assim me deparo com fanáticos de plantão, torcidas
organizadas de políticos e partidos. Creio que isso seja parte do
embevecimento periódico provocado pelas urnas, um artefato
travestido de esperança, assim como as loterias e jogos de azar.
Dessa vez, vai! Assim diz o apostador, ou melhor, o eleitor!
02/11/2024
