Quando a sua dona a construiu, decidiu que as lojas do térreo seriam para criar uma espécie de praça de alimentação. Os primeiros inquilinos desse ramo foram uma loja de açaí na tigela, uma especializada em sushi, uma terceira em hambúrguer, uma doceria e a última voltada para pizzas. Durante um bom tempo, essa foi a configuração desse espaço cujo movimento assisto da minha varanda há uma década, dada a proximidade desse prédio, situado mais precisamente no quarteirão seguinte ao que moro, no lado oposto da rua.
Poderia falar que na maior parte do tempo, esse comércio alimentício funciona regularmente. Contudo, também posso dizer que cenas incomuns, ocasionalmente, visitam essa paisagem urbana para tirá-la do lugar comum. Às vezes, até nos presenteando com situações agradáveis ou divertidas.
Sendo assim, quando foi inaugurado, dois dos inquilinos se uniram e contrataram um grupo para cantar, que nos proporcionou um show, o qual aproveitamos de camarote. Numa outra ocasião, comemorando o aniversário das lojas, contrataram uma cantora fabulosa, a qual também foi um deleite para nós, desfrutado da nossa varanda.
Para não fugir dos acontecimentos musicais, um dia, ouvimos uma mídia móvel de áudio tocando em alto e bom som, uma música ultrarromântica. O carro estava parado em frente à loja de sushi e logo chamou a atenção da vizinhança e dos transeuntes. Impulsionados pela curiosidade, nos postamos na varanda e logo começou a narrativa de uma nada particular declaração de amor e pedido de casamento, atraindo outros tantos apreciadores e curiosos e os envolvendo na expectativa da resposta da noiva, uma funcionária da loja. Para alívio geral, ela aceitou. E para uma indiscrição total, a resposta foi chancelada por uma sequência de explosão de fogos.
Fazia tempo que não víamos dessas cenas. Achava até que a moda do uso desses carros que chegam fazendo barulho e chamando atenção, especialmente, em ocasiões de aniversários, havia passado. Pelo sim e pelo não, aproveitei para relembrar ao meu marido que se algum dia, ele contratasse um serviço dessa natureza para me fazer uma surpresa, quem passaria vergonha seria ele, porque eu não iria botar a cara fora nem por um milhão de fogos.
Entretanto, surpresa mesmo tivemos no dia em que uma enorme limusine estacionou ao lado da galeria. O que não faltou foram olhos cheios de interrogação. Então para espanto do público das lanchonetes e da vizinhança, ela não trazia nenhum freguês para matar a fome, e sim um casal de noivos, a caráter, que iriam para a comemoração de seu casamento em uma casa de festa logo em frente.
No entanto, nem sempre nos surpreendemos com episódios alegres como os shows e os animados aniversários. O dia em que a visão que tive da varanda foi assustadora aconteceu quando assisti a um assalto em que um funcionário de uma das lanchonetes teve sua moto roubada. Tudo tão rápido que soou irreal, porém logo soubemos dos detalhes do acontecido e quem tinha sido a vítima. Dias depois, o rapaz conseguiu reavê-la com a ajuda da polícia, mas não da forma mais ortodoxa.
Além desse acontecimento, tivemos um outro ainda mais tenso. Uma noite, testemunhamos uma cena aterrorizante: um grupo de motoqueiros invadiu a galeria, quebrando mesas e cadeiras da parte externa das lojas, agredindo alguns lojistas e soltando rojões amedrontando os clientes. A motivação foi vingar um entregador de suprimentos do sushi que havia sido destratado por um funcionário. Ficamos tentando entender o que faz as pessoas agirem com tanta violência, mas na verdade não é tão difícil encontrar a resposta, quando se vive um momento de tamanha intolerância. Esse foi outro caso que teve rápido desfecho. As câmeras da rua filmaram tudo e, no dia seguinte, os motoqueiros foram presos. O funcionário foi afastado e contrataram um segurança para diminuir a vulnerabilidade do lugar.
Nem só de acontecimentos humanos vivem os prédios e esse não seria diferente, tendo de passar por melhorias para conviver adequadamente com sol e chuva. Mas antes disso, levamos pequenos sustos por ação dos fortes ventos que vez ou outra circulam nas proximidades. Um deles foi quando a tampa de uma caixa d'água de lá voou e caiu ao lado da casa vizinha. Foi um estrondo. E na vez seguinte, uma parte de uma das cobertas que evitava chuva, foi arrancada e ficou batendo na estrutura de ferro, produzindo um som estranho até que fosse fixada novamente.
No meio dessas histórias, estranho mesmo foi o cachorro daqui de casa criar um inimigo que frequentava a galeria. Tratava-se de um motoqueiro que todos os dias vinha buscar a esposa, uma funcionária da pizzaria. O cão simplesmente cismou com o rapaz, mesmo estando distante e sem nunca terem se cruzado. Todas as noites quando percebia a chegada da moto, corria para a varanda e ficava latindo até o casal ir embora. Nunca entendi essa cisma à distância, já que era muito comum chegarem motos por lá. Quando eu via, tentava fazê-lo parar, mas os latidos só cessaram de vez quando a pizzaria fechou e a funcionária não mais andava por aqui. É o tipo de coisa que, na falta de uma explicação melhor, chamo de malassombro.
03/04/2025
