O estranho laço entre os extremos da vida

Foto: Annie Spratt - Unsplash

Alguma vez você pensou na possibilidade de conhecer a sua árvore genealógica? Pois este é um tema que costuma exercer um certo fascínio sobre as pessoas. Quem nunca teve vontade de conhecer mais sobre os seus antepassados? Tudo bem. Alguns nem querem saber, mas a maioria certamente nutre uma certa curiosidade em torno de suas origens. Fui contagiada por essa vontade e comecei a desbravar a minha 

Nessa busca, um fato que chamou a minha atenção foi a quantidade de óbitos de crianças recém-nascidas nas gerações passadas. Eu sabia que isso era fácil de acontecer dado o atraso da medicina. Conhecia até alguns casos. Na minha família, perto de mim, houve a quase morte do meu irmão por doença nos primeiros meses, e a morte do irmão da minha mãe ao nascer. Quanto aos adultos, a minha avó materna faleceu no parto e uma prima da minha mãe quase perdeu a vida por complicações ao dar à luz o seu terceiro filho.

Embora saibamos desses acontecimentos e do risco existente no passado, é chocante descobrir tantos casos quando pesquisamos os registros antigos e nos deparamos com as certidões de óbito dessas crianças. Ao pesquisar meus antepassados e tentar descobrir uma ligação entre a minha família e a de uma amiga, cujos avós maternos eram da mesma localidade que os meus bisavós por parte de mãe, soube que a avó dela havia perdido treze bebês porque era diabética e as famílias tinham inúmeros filhos. Fiquei

abismada. Não conseguia parar de pensar como era para essas mães enfrentarem tanta perda. Não sei se elas consideravam isso como algo da vida, visto que era uma realidade da época, ou se sofriam tanto quanto imaginamos, considerando a visão de hoje a respeito da expectativa da chegada de um filho desejado.

A minha sogra perdeu cinco filhos, dos quais, dois chegaram a nascer, mas sucumbiram a doenças nos primeiros meses de vida. Havia o agravante de se tratar de uma família do interior, vivendo bastante distante dos recursos da capital. Para nós latinos, pouco adeptos da aceitação dessa passagem, creio que, em geral, esses acontecimentos não eram cogitados, mesmo quando o momento dos partos eram uma potencial ponte entre vida e morte, e um dos lados poderia padecer naquele instante em um laço entre os extremos da vida, ou ambos.

Segundo algumas crenças, quando uma criança não chega a nascer ou mesmo desencarna precocemente, muitas vezes seu espírito retorna em outra criança na família, em um outro filho ou neto, por exemplo. Para os que creem nessa premissa, isso pode ser um conforto. Um outro caminho para se manter próximo do filho perdido é usar o nome dele em um outro, nascido depois. Esse foi um recurso utilizado pela minha sogra em relação ao filho nascido posteriormente, e na sequência de gerações, a filha dele recebeu o nome da irmã do pai, também falecida nos primeiros meses, porque a avó não teve outra filha. Fico imaginando que essas são formas de lidar com essa perda tão incompreendida pela maioria de nós. Afinal, quando imaginamos o porquê do encerramento de uma vida ainda não vivida, muito temos a questionar.

Independentemente de nossas crenças e da realidade na qual vivemos, é preciso nunca esquecer da fragilidade da vida e de que não somos imortais. Atualmente, o benefício de termos tantos recursos para prolongarmos a vida e nos mantermos vivos parece nos fazer esquecer de que a qualquer momento, desde a hora em que chegamos ao mundo, podemos partir. Como costumava dizer a minha avó: "Para morrer, basta estar vivo".

Isso não é uma apologia à morte, mas apenas um raciocínio lógico sobre algo certo e inevitável. Para os que temem até mesmo a abordagem do assunto, digo que basta fazer uma pequena visita à Idade Média para descobrir o quanto o ser humano já tratou com total desdém a questão. Como costumo colocar para praticamente todas as possibilidades: tudo depende do referencial, então mudemos o nosso. Afinal, se estivéssemos em outros tempos, apenas resistir aos primeiros dias de nascido já seria um milagre.

08/08/2025