Um longo corredor

Quando nos lançamos em uma aventura de viagem, é preciso estarmos preparados para encarar o inesperado, caso este se transforma no popular "perrengue". Pensando nisso, quando viajamos em família e algo do gênero acontece, tentamos não perder a esportiva. Porém, é verdade que nem sempre é possível exercermos plenamente essa positividade.

Na última viagem que fizemos, por exemplo, tivemos um perrengue que nos custou não só o replanejamento de mais da metade do nosso roteiro, como também um dia inteiro de peregrinação entre trens e metrôs. Tudo começou com o recebimento de um alerta vermelho de tempestade de vento no dia anterior a nossa saída da cidade. Logo soubemos que tudo seria fechado e os transportes suspensos por um dia. Estávamos em Edimburgo.

Nosso trem para o próximo destino seria pela manhã e a viagem duraria cinco horas. Isso nos daria a possibilidade de aproveitarmos parte do dia para fazermos alguns passeios. Com o cancelamento dos trens, nada mais estava garantido e só no dia posterior ao alerta, pudemos sair para nos aventurarmos na nossa ida.

Originalmente iríamos direto. Com o remanejamento das passagens, pegamos nosso primeiro trem às 8 horas, com a promessa de que teríamos duas conexões férreas. Aparentemente haveria só pequenos atrasos. Entretanto, grande foi a nossa surpresa quando o trem começou a fazer paradas sucessivas e aleatórias sem maiores justificativas. Até que, em um dado momento, houve uma longa parada ao lado de outra locomotiva. Foi quando todos os passageiros vieram dela para o nosso trem em um longo processo para desocupar inúmeros vagões bem ocupados. Tempo suficiente para a manhã se encerrar.

Depois disso, seguimos viagem até a próxima parada onde todos desceram, inclusive nós, ainda sem sabermos o porquê. Algo não previsto quando trocamos as passagens na estação de partida. Hora de negociarmos novamente nossas passagens. Novo trecho e deveríamos descer em uma parada, pegar um pequeno trem sem condutor, dentro da próxima cidade, e descer em uma outra estação a fim de pegar o trem que nos levaria ao nosso destino.

Desce mala, sobe mala, arrasta mala com o puxador do carrinho quebrado. Minha tendinite no braço direito logo se pronunciou: "Estou aqui. Lembra de mim?". Claro que ela refrescaria a minha memória. Lesão por esforço e peso não combinam, então força no esquerdo!

Mais um trem e, dessa vez, cheio de torcedores que haviam ido assistir a um jogo do Manchester United na outra cidade. Além disso, as mesas cheias de garrafas de cerveja deixadas por outros torcedores, provavelmente na ida. Depois de acomodarmos nossas malas em um bagageiro superior onde não imaginávamos caberem, nos sentamos contando os minutos para chegarmos. Ufa! Mais uma vez desce mala, arrasta mala. Dessa vez, até a estação do metrô. Sobe mala, anda duas paradas e fim de linha. Pelo menos, para nós. Cem metros depois, chegamos ao hotel após uma jornada de doze horas e meia.

Curiosamente dois dias antes, meu filho tinha assistido na TV do quarto do hotel, ao filme "O iluminado". Na ocasião ele me perguntou se eu conhecia a famosa cena do menino brincando em um corredor. Eu falei que não, então olhei para a TV e vi o longo corredor com um chão acarpetado.

Quando subimos para a nossa acomodação, ao sairmos do elevador e olharmos para o corredor onde ficavam os quartos, imediatamente ele nos remeteu à cena do filme: o chão com carpete e a ilusão de um túnel infinito. Nossa! Depois de uma viagem que parecia não ter fim e um cansaço extremo, pensei: isso significa algo? Espero que não. No fim, significava apenas que ainda tínhamos mais um longo caminho pela frente porque o nosso quarto era o último, após dezenas de outros e uma porta corta-fogo que levava misteriosamente apenas aos dois últimos.