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Outro dia, escrevi sobre o curioso hábito dos bares e restaurantes da região onde moro deixarem faltar comidas oferecidas em seus cardápios. Sei que estou retornando ao assunto, mas é que me deparei com um caso que se destaca pelas suas intempéries e não pude evitar.
Costuma-se dizer que “santo de casa não faz milagre”. Neste caso, o santo é perto de casa. Acho que por isso, algumas vezes ele falha. Tudo começou ao acaso, quando do prédio onde moro víamos, nos finais de semana, as mesas na calçada. Como raramente passamos em frente, demorou para o vermos de perto, o que mudou totalmente a nossa visão. Diferente do que havíamos imaginado, o bar era um lugar com uma decoração vintage, aconchegante, com um som ambiente e repertório selecionado.
Após essa descoberta, começamos a arriscar visitas esporádicas. Na primeira vez, vimos que o cardápio era reduzido, porém aceitável. No entanto, aí começaram os inesperados. Primeiro, a falta das bebidas de que gosto; então tive que me adaptar. Como lá existe um caldinho de feijão muito saboroso e esse é um tira-gosto tradicional, é comum a expectativa por ele. Porém, nem sempre é correspondida.
No dia em que fomos surpreendidos com a notícia de que não tinha caldinho, porque a alça da panela onde ele estava, se soltara, derramando-o quando foram movê-lo, quase não acreditei. Mas vida que segue. Então, partimos para outras opções do cardápio.
Numa investida seguinte, quando chegamos animados para comer um delicioso prato de risoto – criado pelo dono – não tinha. Segundo o garçom, o dono e cozinheiro do lugar não tinha tido tempo para deixar preparada a panelada do dia. Oi? E não tem uma rotina de preparação dos pratos? Talvez eu não entenda desse negócio. Começamos a perceber que essa receita especialmente padecia de uma inconstância inusitada, ou seja, nunca havia a certeza da sua feitura.
O curioso é que só tem um garçom, então já aconteceu de ele faltar um dia, e a mãe do dono estar fazendo as vezes do funcionário ausente. Na ocasião, os dois, mãe e filho, pareciam bonequinhos de corda, correndo de um lado para o outro, pois o cozinheiro era também o cicerone.
Entretanto, nossa última ida a esse bar superou todas as anteriores. Sem a presença da mãe do dono, sua assistente, o garçom, constrangido, e com ar de quem conta um segredo, nos comunicou que só estaria servindo tira-gostos assados. Nada de caldinho ou pratos. Só os pré-prontos como pastel e bolinhos de diversos sabores. Para não sair de graça, tomamos uma bebida e pedimos uma porção de pastel. Enquanto isso, testemunhávamos vários clientes indo embora ao saber da pedida do dia. Após sermos servidos, comemos e pedimos a conta.
Na saída, o dono, com uma expressão de mãe que deixou em casa uma penca de filhos com fome e todo apressado, veio se desculpar pelo acontecido. Lamentou por seus diversos papéis de filho, dono de casa, cozinheiro de bar e outras coisas mais. Nos explicou sobre sua jornada para dar conta de uma mãe doente com médicos, exames e cuidados, e pela falta de colaboração dos irmãos. Difícil. Uma missão quase impossível.
Na verdade, aquele não era o dia. Já vínhamos de um quiosque de espetinho super movimentado, no qual não ficamos, porque a matéria-prima estava quase no fim. Ao sairmos do bar, fomos para outro espetinho, uma espécie de food truck sem truck. Lá descobrimos que o caldinho havia acabado e que o dono estava também sem o seu assistente.
É. Parece que o vírus do "tá faltando" assolou a região. Vai ver que o calor extremo está causando uma entropia nesse segmento. Isso não quer dizer que desistiremos, mas sim, daremos um tempo para que o surto passe. Quem sabe quando o calor for embora...
05/04/2025
