Achava que te conhecia

Foto: MuiZur (Unsplash)

Passei alguns dias com um pensamento ecoando em meu juízo a me cobrar uma reflexão, e decidi colocar em palavras para descobrir até onde seus tentáculos alcançavam. Em resumo, fiquei elucubrando até onde nos impactamos quando alguém, do nosso convívio pratica algum ato inesperado e chocante. Fui invadida por essas abstrações, depois que assisti a um documentário sobre um caso em que uma mulher foi morta pela namorada de um amigo seu.

Até aí talvez fosse mais um caso de crime passional. Entretanto, quando todas as circunstâncias foram colocadas e ao final aconteceu o julgamento e, nesse contexto, o namorado foi chamado e perguntado se conhecia a namorada, o buraco se mostrou bem mais profundo. Inesperadamente ele respondeu que não. Por trás dessa negativa habitavam significados que vieram à tona. O principal deles seria o de que após anos de convivência, descobriu não conhecer quem era aquela mulher com a qual dividia o mesmo teto e a quem confiava toda a sua vida, inclusive negócios, dinheiro, senhas. Tudo. Se até para quem não a conhecia, como eu, a revelação da culpa foi um choque, para quem estava bem ali ao lado deve ter sido um grande e inesperado soco no estômago. Algo tão difícil de digerir à queima-roupa que imagino um cérebro confuso até assimilar um fato tão pouco inteligível.

Esse é o tipo de história que me faz lembrar outras e que assusta. Sob esse prisma, soa até insensato vermos pessoas defenderem outras porque têm a certeza de conhecê-las bem. Será que isso é possível? Tenho me feito essa pergunta após ver, em casos que se tornaram públicos, testemunhas afirmarem ter convivido com o criminoso sem nunca imaginarem o crime que ele seria capaz de cometer e pelo qual foi acusado.

Será que há uma forma infalível de sabermos do que as pessoas são ou não capazes? Talvez até exista, mas até aqui não a conheço. Imagino que seja mais fácil apontar o que certas pessoas são capazes de fazer, no mau sentido. Torna-se ainda mais difícil identificar o autor de uma ação atroz, quando ele é uma pessoa tão comum que não levanta suspeita naqueles que o rodeiam. Se quisermos uma grande amostra desse fato, é só olharmos, por exemplo, para o número de pessoas que transpareciam normalidade, mas cometeram crimes bárbaros na Segunda Guerra Mundial.  Esse fato é muito perturbador para pesquisadores que buscam o entendimento sobre o comportamento humano.

Um outro cenário onde visualizo esse inesperado acontecer é quando sem que haja sinais, um dos cônjuges decide pôr fim à vida do outro ou mesmo sumir. Quantos homens já foram embora de casa com um "Até logo" e partiram para viver em um outro lugar. Quantos já sacrificaram até a vida dos filhos, só para atingir a esposa. Nem sempre é possível imaginar o que o cérebro doente de um outro ser humano pode esconder.

Isso nos leva também a um outro lugar em nosso próprio país. Nos últimos anos, temos assistido a pessoas se entregarem a um tipo de fanatismo político, chocando parentes e amigos ao se revelarem adorando objetos, rezando para seres inexistentes, ou mesmo chorando e pedindo por coisas que no fim só poderiam piorar suas vidas. Alguns agindo como zumbis ou defendendo pessoas que os desprezariam. Eles exteriorizam seu lado sinistro, porque existem outros para chancelar esse comportamento, ora irracional, ora perverso. É difícil hoje não ter na família alguém que não tenha sucumbido a esse momento de perda de referência e mostrado seu lado obscuro, por vezes inesperado.

Dito isso, em um contexto como esse, o que poderíamos responder se alguém nos perguntasse: "Você conhece essa pessoa?". Talvez em uma mostra de boa vontade pudéssemos retrucar: "Achava que conhecia, hoje não sei mais".

09/05/2026