Os tons regionais

‒ Esse seu sotaque é tão engraçado ‒ disse uma carioca para um cearense.
‒ Eu também acho muito engraçado o seu sotaque ‒ devolveu o cearense.

Essa questão de mudar os tons das falas de acordo com as regiões é mesmo curiosa. Segundo os estudiosos, eles se originam a partir da história e cultura locais, e mudam com o avanço das gerações. No Brasil, as diferenças regionais de sotaque estão muito atreladas ao início da nossa colonização. Ou seja, o cruzamento entre os diversos povos de um lugar resultou no canto das vogais e consoantes que temos hoje.

E não é só dizer que foi, por exemplo, a mistura do português com o índio. As variações vão além. Precisamos considerar, nesse caso, a junção das falas das regiões nativas desses personagens. De qual parte de Portugal com qual tribo de índio? Ou de qual parte da Europa com qual tribo da África? As possibilidades são inúmeras. Por isso, temos tantas e tantas entonações. Não somente por estado, mas também por cidades. Se moro na capital, já falo diferente de quem nasceu no interior.

Essas variações são tão naturais que também ocorrem em outros países, mas claro, pelas nossas dimensões e miscigenações tendemos a multiplicar o resultado da soma desses fatores. Entretanto, o que soa estranho é o posicionamento daqueles que querem impor uma padronização de sotaques, tendo como base a região Sudeste. É preciso honrar e respeitar a história e a cultura de cada povo, isso inclui o sotaque, as gírias e vocabulários locais.

Chega a ser divertido identificar expressões que, um dia, fizeram parte do palavreado de uma outra geração e que agora são pouco usadas. Ou mesmo aquelas próprias de um povo. Recentemente, tive a alegria de enviar para a minha tia um dicionário de Pernambuquês. Nessa obra, ela tem encontrado palavras que seus antepassados utilizavam, mas caíram em desuso, e outras tantas que ela ainda usa. Entretanto as gerações seguintes só utilizam aqui e ali e com a ressalva: "Como dizia..." e cita o parente envolvido na memória idiomática.

No entanto, a questão não se restringe só à linguagem falada, respingando também na escrita. Embora pareça improvável, é possível que aconteça de lermos um livro com tantas expressões regionais ou antigas que até se pareça com um dialeto. Isso aconteceu comigo, quando tentei ler uma velha obra de Monteiro Lobato. Aconteceu também, quando li uma obra de um conterrâneo do meu marido. Não fosse o suporte dele, não teria entendido metade do livro, dado o regionalismo digno de um glossário.

Dentro desse assunto, um outro fato que me impressiona são as pessoas que nunca perdem a raiz de sua fala, mesmo estando longe de seus conterrâneos há décadas. Conheço alguns casos e considero isso quase um dom, porque eu mesma não me enquadro nesse universo. Olhando sob esse aspecto, sou uma vergonha. Não posso passar três dias na presença de outros sotaques que já vou assimilando seus jeitos e trejeitos. De certa forma, deve ser assim que nascem os maneirismos de uma população. O pior disso é que não há graça para um povo quando um nativo sai por uns dias e retorna falando como uma outra gente.

Observando a questão do canto das palavras, percebo que alguns sotaques me encantam, porque trazem uma proximidade incomum. Explico: é quando a entonação abraça o outro e o convida para entrar. É como se fosse um mimo da fala. Puxa a gente para junto sem precisar pegar pelo braço. De forma simplista é o que denominamos de "jeitinho", algo bem típico em algumas regiões como o interior do Ceará e de Minas, lugares onde ainda se encontram acolhimento e boas-vindas.

É quando diferença se torna identidade. Podemos até enxergar uma certa graça em algumas falas, mas o deboche não seria um avaliador. Um dia, estava fora do país numa região onde parte da população fala inglês e, numa conversa com um nativo, quando meu filho falou que éramos brasileiros, ele comentou com entusiasmo que adorava nossas músicas, porque gostava muito de como o português soava para ele. Penso que esse deve ser o sentimento, quando ouvimos outras línguas. Que nos encantemos com os tons que contam história e dizem muito sobre seus donos.

10/01/2026