O cuco alemão

Creio que a maioria das pessoas se encantam com os tradicionais cucos alemães. Eles são, de fato, graciosos. O meu marido tinha o desejo de um dia comprar um. Então, quando estávamos na cidade de Gramado, e passamos em frente a uma loja de relógios de corda, especialmente cucos alemães, ele teve a oportunidade de escolher o seu. Mas no meio desse episódio, algo me chamou a atenção: a afirmação da vendedora de que já não ouvia mais os cucos da loja, quando marcavam as horas e suas frações.

Há mais de uma década, o nosso relógio nos lembra o passar do tempo, mas nunca deixei de perceber as "cucadas". Será que pode existir uma pessoa que se acostume com um barulho desse tipo? E ainda mais com uns 30 passarinhos de corda a piar um após o outro? Saí da loja, duvidando da vendedora até me lembrar de um fato. Quando eu era bem mais jovem, vez ou outra dormia na casa de uma amiga. Ela morava em um prédio situado em uma avenida super movimentada. Quando soube onde era, fiquei imaginando como alguém conseguiria viver em um lugar assim, pois eu sempre havia morado, até então, em ruas muito silenciosas.

Contudo, para a minha surpresa, depois de dormir lá algumas vezes, lutando para adormecer, mesmo com o barulho do trânsito, um dia finalmente consegui pegar no sono, apesar da poluição sonora. Depois disso, passei a não me incomodar mais com o ruído. Esse acontecimento, então, termina por corroborar a afirmação da vendedora.

Ao me dar conta disso, fiquei pensando no quanto temos a capacidade de nos acostumar com coisas que nos fazem mal. É estranho, mas também é uma questão de sobrevivência. Logicamente, existem aquelas situações que vão acumulando dissabores, pois não há como vivermos sem nos importar com fatores a corroer o corpo ou a alma.

Às vezes, não compreendemos como algumas pessoas conseguem viver em condições precárias, mas elas também se amoldam para sobreviver, apesar das adversidades. O ser humano é uma criatura que pode existir de tal forma, sem ter a plena consciência de sua condição de vida. E talvez só descubra que estava no modo sobrevivência, após sair dele.

Sob esse prisma, lembro quando trabalhei por seis anos em uma empresa, cuja forma de executarmos nossas atividades nos deixava suscetíveis a erros e incidentes. Eu não enxergava totalmente aquela condição até ir para uma outra, na qual seguíamos um processo. Dessa forma, a tendência era os fluxos funcionarem como esperado. Só então, percebi o quanto era ruim a forma como trabalhava, e entendi o motivo de passar por tantos momentos de tensão e estresse. Eu tinha me acostumado a estar sob uma coordenação sem um direcionamento e achava aquilo normal.

Hoje, finalmente, entendo o quanto podemos nos habituar a viver num cenário não salutar por um longo tempo, dia após dia, com um cuco, ou algo que o valha, a nos acompanhar. Creio que alguma coisa em nós é desligada para sobrevivermos a essas provas diárias. E o tempo de acordar? Vai depender da nossa capacidade de dar um passo à frente e para fora na nossa jornada de vida.

05/09/2026 

Baixa o áudio, por favor!

https://www.magnific.com/br 

Depois do advento dos vídeos nas redes sociais, passar constrangimento por soltar o som no lugar errado e, às vezes, na hora errada, tem sido algo comum em diversos lugares, em geral públicos, e em situações inapropriadas. 

Por um estranho motivo, nós, humanos, ficamos incomodados quando, por exemplo, alguém está falando alto ao telefone e não sabemos o que o outro lado está dizendo. De forma parecida, mas ao mesmo tempo um pouco diferente, ficamos afetados quando alguém está assistindo a um vídeo e ouvimos o som deste sem que tenhamos escolha. Daí a necessidade de, eventualmente, se colocar uma placa alertando para só se usar o som do celular com fone de ouvido.

Um lugar onde encontrei um desses avisos foi na recepção da clínica, na qual faço fisioterapia e onde normalmente circulam muitos idosos. Estes, em geral, não são dados a usar apetrechos auriculares. Então, volta e meia, um entra em um vídeo no volume alto, mas não consegue controlá-lo e nem perceber que está incomodando. Nessa hora, os outros ficam se entreolhando sem ação e só resta apelar para a santa paciência, enquanto dura a zoada.

Entretanto, nem sempre o vídeo é do tipo que incomoda. Há os que, pela sua natureza, o dono do celular é capaz de desligá-lo, quando não acerta o botão do volume ou do pause. Daí, o grande constrangimento. O mais famoso dessa pegadinha é o "gemidão", sempre inesperado e infiltrado no meio de uma mensagem aparentemente inocente. Inicialmente, fica num volume baixo, só para obrigar a vítima a aumentá-lo e, consequentemente, passar vergonha. Isso aconteceu com um colega de trabalho, numa sala estilo redação de jornal onde éramos dezenas de funcionários. No desespero para fazer cessar aqueles gritos sensuais e exagerados, ele não conseguia abaixar o som. Enquanto isso, ríamos da sua agonia. Quando finalmente acabou, ele esboçou um riso nervoso. Suas bochechas coradas, no entanto, denunciavam seu desconserto.

Um conhecido meu também presenciou algo parecido, com a diferença de que aconteceu em uma sala de aula na universidade, e o professor não era dos mais amigáveis. A mensagem havia sido enviada propositadamente por um dos colegas de sala, porque a vítima não era das pessoas mais afáveis.

Lembro do relato de uma colega que, na pandemia, quase perdeu o juízo com o vício do pai em passar o dia olhando vídeos no Instagram num som alto. Como o idoso já não tinha uma boa audição e ainda vivia a fase da teimosia e do "Eu faço o que eu quiser", a filha e a esposa viviam a procurar um lugar para fugirem daquela distração unilateral, com o agravante de que não tinham para onde correr, dado o contexto da época.

Hoje, vez ou outra, me pego fazendo o papel da reclamante nos momentos em que o marido se empolga a assistir a longos vídeos, cujo som chega ao cômodo onde trabalho. O detalhe é que o Ipad, que utiliza para isso, perdeu o controle de volume e só tem o máximo e o mínimo. Então, para atalhar o problema ele luta com o seu tablet, abafando o som de alguma forma. E não adianta oferecer um headphone, porque receia prejudicar os ouvidos.

Cheguei à conclusão de que o hábito de assistir a esses vídeos é mais um vício que acomete a população, afora outros tantos. Se as redes sociais já têm sido questionadas pelos tantos efeitos que têm causado nas pessoas, esse é mais um elemento a ser considerado nesse novo mundo virtual e paralelo. Se por um lado diverte, por outro, tem sido uma fonte propagadora de futilidades. Muitas vezes a consumir o tempo útil das pessoas, algo valioso e irrecuperável. 

09/08/2026